Temas » Nutrição Parenteral » Artigos » Conheça os cuidados necessários para o manuseio da nutrição parenteral

Conheça os cuidados necessários para o manuseio da nutrição parenteral

O manuseio da nutrição parenteral envolve diversas etapas complexas — como prescrição, manipulação, dispensação e administração. Por isso, está suscetível a erros em diferentes pontos do processo, e seu manuseio exige rigorosas medidas de segurança (1). A seguir, descubra quais são eles.

Segurança na prescrição

Antes mesmo da administração, a prescrição de nutrição parenteral deve ocorrer de forma segura: em um ambiente adequado, livre de distrações, com uso preferencial de sistemas eletrônicos e modelos padronizados de prescrição — evitando ordens manuscritas ou verbais (2).

A prescrição deve conter dados completos, como:

  • Identificação do paciente
  • Tipo de acesso venoso
  • Velocidade de infusão
  • Composição detalhada dos nutrientes

Toda transcrição deve passar por um processo de verificação independente (“double-check”) documentado e auditável (2).

Essas medidas iniciais são essenciais para garantir a segurança no manuseio da nutrição parenteral desde os primeiros passos.

Manuseio da nutrição parenteral: preparo, rotulagem e dispensação

A manipulação da NP deve ocorrer na farmácia, sob condições rigorosas de assepsia, conforme diretrizes para preparações estéreis (2). É importante observar que nem todos os centros hospitalares têm um farmacêutico qualificado para a manipulação de nutrição parenteral, um problema que pode ser eliminado com o uso de bolsas comerciais “tudo em um”

No momento do recebimento das bolsas com as fórmulas industrializadas, é essencial conferir se o produto recebido é compatível com aquele que foi prescrito e avaliar a integridade da embalagem e a legibilidade dos dados no rótulo (3).

A rotulagem deve conter todos os elementos da prescrição, com sequência e unidades padronizadas, garantindo rastreabilidade e segurança (2).

Algumas fórmulas industrializadas utilizam rótulos em cores distintas conforme a composição, o que adiciona uma camada extra de segurança à verificação do item.

No caso das bolsas individualizadas para recém-nascidos pré-termo, recomenda-se proteção completa contra a luz, devido à maior vulnerabilidade desse grupo (3).

A responsabilidade pela manutenção da qualidade da NP até sua administração é do farmacêutico da unidade hospitalar ou farmácia de manipulação. Esse profissional deve garantir as condições adequadas de armazenamento e orientar os funcionários responsáveis pelo transporte (1).

Por fim, a temperatura da nutrição parenteral manipulada deve ser controlada rigorosamente: durante o transporte, entre 2°C e 20°C por no máximo 12 horas; e no armazenamento, entre 2°C e 8°C, por até 24 horas (1).

Manuseio da nutrição parenteral: administração

Todas as práticas de administração da NP devem estar claramente descritas em políticas institucionais específicas para a UTI, com responsabilidade compartilhada entre equipes treinadas (2).

Recomenda-se o uso de técnica asséptica durante o preparo e conexão dos sistemas de infusão, com atenção especial à rastreabilidade das linhas, identificação correta do paciente, e verificação dupla independente de aspectos como: compatibilidade com a prescrição original, taxa de infusão e via de administração (2).

A conexão e desconexão da NP devem ser realizadas exclusivamente por enfermeiros capacitados. A preparação da pele deve seguir protocolo rigoroso de antissepsia com clorexidina alcoólica > 0,5%, e as conexões devem ser desinfetadas com solução à base de álcool. Curativos devem ser transparentes ou com gaze, sendo trocados conforme cronograma institucional, para prevenir infecções relacionadas ao cateter (1).

Além disso, a nutrição parenteral deve ser administrada em temperatura ambiente, entre 15°C e 30°C, respeitando as recomendações para sua estabilidade e conforto do paciente (1).

A troca do equipo e do dispositivo complementar deve ser feita a cada bolsa administrada. No caso de infusões exclusivamente lipídicas, essa troca deve ocorrer a cada 12 horas, garantindo a segurança microbiológica e físico-química da solução (1).

Quanto ao tempo de infusão, para formulações individualizadas, a infusão deve ser iniciada até 24 horas após o preparo, com duração máxima de 24 horas adicionais. Já as fórmulas prontas para uso podem ter validade de até 48 horas, conforme indicado pelos fabricantes (1, 3).

Quanto ao tempo de infusão, para formulações individualizadas, a infusão deve ser iniciada até 24 horas após o preparo e mantida por, no máximo, 24 horas, com troca obrigatória do equipo nesse período (1, 3-5).

Já as bolsas prontas para uso podem ter validade de até 48 horas, conforme indicado pelos fabricantes. Entretanto, o conjunto de administração deve ser substituído a cada 24 horas para reduzir o risco de infecção (1, 3).

Em ambiente hospitalar, podem ser utilizados cateteres venosos centrais (CVC) não tunelizados, PICCs ou cateteres periféricos. Para a nutrição parenteral domiciliar, recomenda-se o uso de CVC tunelizados ou PICCs, que oferecem maior segurança em longo prazo (1).

Por fim, a seleção, limpeza e manutenção das bombas de infusão também devem seguir critérios específicos. Recomenda-se o uso de bombas de controle de fluxo volumétrico, com desinfecção a cada 24 horas ou sempre que forem destinadas a outro paciente, além de manutenção periódica feita pela equipe de engenharia clínica da instituição (1).

Abaixo, confira um checklist para dispensação e administração da nutrição parenteral sugerido pela BRASPEN.

checklist para dispensação e administração da nutrição parenteral sugerido pela BRASPEN

Algumas intervenções são necessárias para reduzir riscos

Algumas intervenções e o acompanhamento adequado da terapia nutricional via parenteral podem contribuir de forma adicional para a redução dos riscos.

Nos casos de oclusão do cateter, por exemplo, é fundamental identificar a causa do bloqueio (3).

Na presença de obstruções não trombóticas podem ser usadas soluções específicas para desfazê-las. Soluções fibrinolíticas são indicadas para resolver problemas relativos a obstruções trombóticas (3).

No geral, recomenda-se não trocar rotineiramente cateteres periféricos em menos de 96 horas e de forma recorrente para acessos centrais, exceto diante de sinais da presença de infecções ou de um mau funcionamento do dispositivo (3).

Por fim, é fundamental que todas as atividades relacionadas ao manuseio da nutrição parenteral — incluindo intervenções, correções e erros — sejam registradas no prontuário eletrônico e avaliadas rotineiramente (2).

 

Referências

1 – Gonçalves RC, Matos LBN, Cunha HFR, Totti F, Kawagoe JY, Martin LGR, et al. Manual BRASPEN de competências relacionadas à dispensação e à administração de nutrição parenteral. BRASPEN J. 2023;34(3):217–32.

2 – Boullata JI. Safe practices for enteral and parenteral nutrition. In: Nutrition support for the critically ill. 2016. p. 229–41.

3 – BRASPEN – Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral. Diretriz BRASPEN de Enfermagem em Terapia Nutricional Oral, Enteral e Parenteral. BRASPEN J. 2021;36(Supl 3):2–62.

4 – Bond A, Chadwick P, Smith TR, et al. Diagnosis and management of catheter-related bloodstream infections in patients on home parenteral nutrition. Frontline Gastroenterology. 2020;11:48–54.

5 – O’Grady NP, Alexander M, Burns LA, Dellinger EP, Garland J, Heard SO, Lipsett PA, Masur H, Mermel LA, Pearson ML, Raad II, Randolph AG, Rupp ME, Saint S; Healthcare Infection Control Practices Advisory Committee (HICPAC). Guidelines for the prevention of intravascular catheter-related infections. Clin Infect Dis. 2011 May;52(9):e162-93.

Informação Relacionada